Ninguém pense que renderei homenagem a Goethe contando a história de um fausto latino a vender a alma ao diabo por um milhão, como os pobres-diabos fazem no Big Bother, o aborrecido Big Bode Brasil. Não, o nome da figura que inspirou o título desta narrativa efêmera é Diablo Cody, roteirista do filme Juno (e eu que ia me abster totalmente de falar algo sobre esse Oscar que não vi nem quis ver... só achei graça que o "reitor da Uniloura" Zé Wilker tava lá, como sempre, a comentar a cerimônia na TV Globo).
A notícia do sapato de um milhão de dólares está na página principal do Yahoo Brasil. Em contraste, no segundo lugar por ordem na "agenda" do site, a chamada ao novo plano de combate à pobreza, do Governo Federal.
Juno, filme que não vi ainda, é do mesmo autor do ácido Obrigado por Fumar, e fala sobre gravidez na adolescência. O título se refere à deusa grega do casamento. Talvez Juno, como a roteirista Diablo Cody, sentisse um frisson de orgulho ao calçar o sapato de ouro (não de cristal como Cinderela...) com tiras em T e aplique em forma de rosa com miríade de diamantes, gemas cristalinas de puro carbono, que quanto sangue africano custaram a arrancar?!
Definitivamente não, não é chique calçar um sapato dourado de um milhão de dólares com rosa dos diamantes eternos e sangrentos. Mas a indústria de Hollywood vive de sonhos e aparências, enquanto o país sangra seu consumo desenfreado e sangra as guerras estúpidas de mr. Bush - que irá tarde, muito tarde, para deixar nas páginas de História seu rastro de genocida republicano.
In God we trust, diz a mensagem na cédula de dólar, que se desvaloriza frente ao euro mas ainda domina o caixa de reservas internacionais neste planetinha. Que Deus nos salve de uma América intransigente. Que a África possa, ainda que descalça, comer algo além de insetos. Que o mundo seja um lugar com menos sapatos de um milhão e com mais milhões alimentados e vivendo dignamente.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Carochinhas financeiras
Cá no reino do patropi, comemora-se em manchete uma posição inédita em nossa história econômico-financeira: o Brasil entra no azul com uma "laminha" de 4 bilhões, vira "credor internacional".
Para surpreender mais o nosso conto de festivo imaginário, o fato se dá sob a presidência daquele a quem os ricos temiam, em 1989. Pois se eleito ia trazer pobres lacaios pra dentro dos castelos dos novo-ricos urbanos. Nada como a passagem das décadas. Lula da Silva "rezou a cartilha" dos credores internacionais e botou a equipe econômica pra fazer a lição de casa como mandou a Madrasta. Graças à varinha de condão de uma ortodoxa política econômica e a ação de palavrinhas mágicas como câmbio flutuante, responsabilidade fiscal etc e tal. temos esse resultado, mais virtual que real. Os números impressionam, mas e a vida do povo? O dinamismo da produção como vai? De todos modos, a notícia deixa um gostinho de vitória, oferece uma chance pra deixarmos coletivamente o complexo de Borralheira que tanto subsiste em nós brasileiros. Mas não dá, mesmo, pra proclamarmos um inocente ufanismo de patriotada. Não tem fada-madrinha, nem príncipe no cavalo branco pra virarmos uma Cinderela na ciranda das finanças internacionais. Se acontece, vai até a meia-noite só! E depois, temos que, com abóboras e ratinhos, erguer a cabeça e borralheiramente batalhar por uma soberania possível, e viável.
Enquanto isso, lá no Velho Continente que nos deu as clássicas histórias de carochinha, bem no Mitte Europas tá um barulho danado por causa da descoberta dos novos paraísos fiscais dos velhos-ricos do velho mundo: Lichtenstein, capital Vaduz, é o reino dos ricos (Reich des Reichen, no original, fica melhor). Pelo menos 2500 correntistas alemães escondem seu tutu por lá. Deu no Der Spiegel hoje: as investigações estão levando a mais um destino de evasão fiscal, Rostock, lá pra banda do Mar do Norte. Mas isto só é digno de reportagem na Europa Central, aqui pra nossa imprensa há outras notícias mais importantes do que contar a roubalheira dos outros.
Para surpreender mais o nosso conto de festivo imaginário, o fato se dá sob a presidência daquele a quem os ricos temiam, em 1989. Pois se eleito ia trazer pobres lacaios pra dentro dos castelos dos novo-ricos urbanos. Nada como a passagem das décadas. Lula da Silva "rezou a cartilha" dos credores internacionais e botou a equipe econômica pra fazer a lição de casa como mandou a Madrasta. Graças à varinha de condão de uma ortodoxa política econômica e a ação de palavrinhas mágicas como câmbio flutuante, responsabilidade fiscal etc e tal. temos esse resultado, mais virtual que real. Os números impressionam, mas e a vida do povo? O dinamismo da produção como vai? De todos modos, a notícia deixa um gostinho de vitória, oferece uma chance pra deixarmos coletivamente o complexo de Borralheira que tanto subsiste em nós brasileiros. Mas não dá, mesmo, pra proclamarmos um inocente ufanismo de patriotada. Não tem fada-madrinha, nem príncipe no cavalo branco pra virarmos uma Cinderela na ciranda das finanças internacionais. Se acontece, vai até a meia-noite só! E depois, temos que, com abóboras e ratinhos, erguer a cabeça e borralheiramente batalhar por uma soberania possível, e viável.
Enquanto isso, lá no Velho Continente que nos deu as clássicas histórias de carochinha, bem no Mitte Europas tá um barulho danado por causa da descoberta dos novos paraísos fiscais dos velhos-ricos do velho mundo: Lichtenstein, capital Vaduz, é o reino dos ricos (Reich des Reichen, no original, fica melhor). Pelo menos 2500 correntistas alemães escondem seu tutu por lá. Deu no Der Spiegel hoje: as investigações estão levando a mais um destino de evasão fiscal, Rostock, lá pra banda do Mar do Norte. Mas isto só é digno de reportagem na Europa Central, aqui pra nossa imprensa há outras notícias mais importantes do que contar a roubalheira dos outros.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Triste farra do boi
Não, não vou discutir aquela condenável prática de crueldade à guisa de lazer vista aqui em nossa Terra Brasilis.
E sim chamar a atenção para um recorde (creio, inédito) de recall de 65 mil toneladas de carne bovina, recém-registrado na Califórnia. Deu no Financial Times hoje, chamada principal em Economia Internacional. Boa parte da carne já passou por estômagos norte-americanos, 17 mil toneladas foram para merenda escolar e outros programas federais de alimentação. Segundo a Associated Press, o lote vindo da China de carne congelada foi abatido com crueldade e há suspeita de contaminação por E. coli, Salmonella e "doença da vaca louca".
Enquanto isso, a UE insiste no veto protecionista à carne brasileira. E nosso Ministro de Agricultura dá tiro no pé, faz discurso desfavorável ao país que deve representar, assumindo que é impossível fiscalizar a vacinação contra aftosa em tantas empresas (então por que cadastrar 2 milhares?). Isto já foi devidamente comentado na imprensa brasileira, na semana passada.
Interessante ver a segunda chamada do Financial Times, sobre alta dos grãos, logo abaixo da manchete sobre o megarecall bovino nos EUA. Não trata-se de notícia fresquinha, tampouco, a da alta dos grãos, mas lida em conjunto com o headline, traz um cenário muito claro do cruel e injusto desequilíbrio alimentar neste planeta. Diz o texto: "até julho de 2008, os países pobres pagarão 35% a mais por importações de cereal". O valor, também um recorde, US$ 33,1 bilhões, influi numa redução de compras em 2%.
Antes da primeira globalização, aquela das grandes navegações, cada nação se alimentava daquilo que a terra oferecia. No continente sul-americano, por exemplo, mandioca, milho, quinoa (nos Andes). Mas o colonizador europeu trouxe ao mundo a necessidade pelo trigo, tornando ainda mais dependentes os mais pobres (especialmente no quesito alimentar: africanos e habitantes do sudeste asiático, mas também nós sul-americanos).
Hoje o Egito é um dos maiores importadores de trigo. E o Paquistão, cujo povo deixou de votar por medo de morrer, voltou a necessitar os cartões de racionamento de comida.
Não se trata de banir a carne ou o trigo. Consumidos com moderação, como diziam nossas avós, nada faz mal. Porém, os excessos do fast food baseado no hambúrguer e no pão branco de trigo refinado, adoecem o planeta e os ricos, enquanto os famélicos permanecem à míngua.
Em tempo: meu almoço foi acelga, cenoura, macarrão de trigo integral à bolonhesa (patinho moído). Sexta e sábado, polenta...
E sim chamar a atenção para um recorde (creio, inédito) de recall de 65 mil toneladas de carne bovina, recém-registrado na Califórnia. Deu no Financial Times hoje, chamada principal em Economia Internacional. Boa parte da carne já passou por estômagos norte-americanos, 17 mil toneladas foram para merenda escolar e outros programas federais de alimentação. Segundo a Associated Press, o lote vindo da China de carne congelada foi abatido com crueldade e há suspeita de contaminação por E. coli, Salmonella e "doença da vaca louca".
Enquanto isso, a UE insiste no veto protecionista à carne brasileira. E nosso Ministro de Agricultura dá tiro no pé, faz discurso desfavorável ao país que deve representar, assumindo que é impossível fiscalizar a vacinação contra aftosa em tantas empresas (então por que cadastrar 2 milhares?). Isto já foi devidamente comentado na imprensa brasileira, na semana passada.
Interessante ver a segunda chamada do Financial Times, sobre alta dos grãos, logo abaixo da manchete sobre o megarecall bovino nos EUA. Não trata-se de notícia fresquinha, tampouco, a da alta dos grãos, mas lida em conjunto com o headline, traz um cenário muito claro do cruel e injusto desequilíbrio alimentar neste planeta. Diz o texto: "até julho de 2008, os países pobres pagarão 35% a mais por importações de cereal". O valor, também um recorde, US$ 33,1 bilhões, influi numa redução de compras em 2%.
Antes da primeira globalização, aquela das grandes navegações, cada nação se alimentava daquilo que a terra oferecia. No continente sul-americano, por exemplo, mandioca, milho, quinoa (nos Andes). Mas o colonizador europeu trouxe ao mundo a necessidade pelo trigo, tornando ainda mais dependentes os mais pobres (especialmente no quesito alimentar: africanos e habitantes do sudeste asiático, mas também nós sul-americanos).
Hoje o Egito é um dos maiores importadores de trigo. E o Paquistão, cujo povo deixou de votar por medo de morrer, voltou a necessitar os cartões de racionamento de comida.
Não se trata de banir a carne ou o trigo. Consumidos com moderação, como diziam nossas avós, nada faz mal. Porém, os excessos do fast food baseado no hambúrguer e no pão branco de trigo refinado, adoecem o planeta e os ricos, enquanto os famélicos permanecem à míngua.
Em tempo: meu almoço foi acelga, cenoura, macarrão de trigo integral à bolonhesa (patinho moído). Sexta e sábado, polenta...
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Das cinzas, Fênix
... depois do Carnaval é que o ano começa,
a brincadeira descomeça pra tudo se acabar na quarta-feira
e no dia de feira a Quaresmeira floresce
e o que é de morrer esmorece
o que há de viver nasce e medra vinga e
viva! ao trabalho, que já é hora.
na terra da garoa o helicóptero sobrevoa
_ sobrevoava _ sobrevoara _ sobrevoará?
a quadra-entorno da VaiVai, campeã de última hora
no último quesito harmonia desempate.
Acabou-se a festa Mocidade verde
Amadurece o grito no umbigo da cidade
E na Vila Maria, feliz terceira como primeira,
oferece numa bocarra-livre 500 kg de carne,
1200 litros de breja pras brejeiras
morenas loirinhas japinhas mulatas ruivinhas
e os homens da Sampa multiculti
quem vai-vai, quem não foi, fui!
Pensamento solto ao vento:
que me perdoem os originalistas que se arvoram precursores, mas paráfrase é fundamental.
a brincadeira descomeça pra tudo se acabar na quarta-feira
e no dia de feira a Quaresmeira floresce
e o que é de morrer esmorece
o que há de viver nasce e medra vinga e
viva! ao trabalho, que já é hora.
na terra da garoa o helicóptero sobrevoa
_ sobrevoava _ sobrevoara _ sobrevoará?
a quadra-entorno da VaiVai, campeã de última hora
no último quesito harmonia desempate.
Acabou-se a festa Mocidade verde
Amadurece o grito no umbigo da cidade
E na Vila Maria, feliz terceira como primeira,
oferece numa bocarra-livre 500 kg de carne,
1200 litros de breja pras brejeiras
morenas loirinhas japinhas mulatas ruivinhas
e os homens da Sampa multiculti
quem vai-vai, quem não foi, fui!
Pensamento solto ao vento:
que me perdoem os originalistas que se arvoram precursores, mas paráfrase é fundamental.
Assinar:
Postagens (Atom)